sexta-feira, 7 de março de 2008

Teu Gozo


Guiei-me para o quarto, cego de pupilas dilatadas, a claridade me feria, tirava lascas de meu ser. A cama sedenta pelo corpo, o corpo sedento pelo sexo. Ao sexo só dava-se minha mão e minha mão só podia conter a ânsia profunda que repuxava em meu estômago. A mão incapaz de qualquer ação que me valeria de satisfação. A escuridão resplandecente era cúmplice de meus crimes.

A mão cansada me doía no fundo do peito, a cabeça latejando, as imagens rondando. O que era real não sou capaz de dizer, o que era pura alucinação menos ainda. As pálpebras entregavam meu estado e o sorriso doentio assustava o que não estava ali. A incerteza da paixão nunca ganha, porém perdida era a droga que me sugava para o inferno de minha coleção de horrores.

Sons inaudíveis que me penetravam, não pelos ouvidos – eram expelidos por eles –, vinham de dentro para fora na ânsia de ganhar o exterior. Insanidade material, indetectável. O gozo da vida que me era negado, o corpo incapaz da ação, a mente corroída: esse era meu eu.

As unhas lascadas, feridas abertas, a braguilha sobressalente. Cabelos revoltos, o peito descarnado, a boca de entrada. A fantasia já não me satisfaz, corrida de pés descalços sobre o vidro, a dor que já não sinto. Corda; me chama. Navalha; se manifesta em minha covardia.

O dia que estava por nascer trazia à tona todos meus medos mais profundos, se a escuridão era cúmplice, a luz entregava. O ser ignóbil que era temia a não ignorância e por isso a deixava ser. O não saber é o não temer, o temer tudo. Em minhas aflições era consumido. Pouco a pouco tornei-me não mais eu, mas um eu que se escondia em minhas estranhas e usava meu corpo já fraco.

A insanidade que me tomava não se fazia perceber por mim e assim crescia. A comida era asquerosa, o café, lama. As vozes gritavam meu nome por trás das paredes, me convidavam a conhecê-las. Vozes sem corpo, canários que cantavam em latim. O marasmo me consumia, a agitação me ensandecia. A rota já não era mais bifurca, tinha milhares de caminhos sobrepostos, os pés calejados já não podiam mais me guiar. O tripé só tinha duas pernas.

O vaso sanitário enferrujado, o espelho trincado, a pia com vazamento, o chão imundo. Se ainda me restava alguma iluminação interna, acabara ali. Já não era nada mais que um homúnculo, um corpo vazio, super-poderes. O poder era o que matava, o poder indiferente, ejetor da indiferença latente em minha alma: alma que diluíra-se.

Os joelhos grudados no chão pegajoso, esfolado pelo rastejo, cortado pelo vidro. De cabeça baixa tentava manter os olhos abertos. As horas, os dias, os meses, o sistema métrico que jazia em alguma parte deteriorada de meu cérebro – ainda lembrava de sua existência, mas já não media. Não era necessário.

Insensatez, corpo nu. As costelas marcadas em vermelho. O som da fechadura ressoa como o badalo de um sino contando as horas pro final. Guimbas queimadas até o filtro forram o chão e se misturam com todos meus dejetos. Traços do que ora fora puro prazer e já não passa de fluído desprendido. Quero limpar-me, mas a porta está entreaberta e minha perdição espreita pela fresta.

O badalo final e tu adentras, teu sorriso tão doentio quanto meu próprio. Desfere palavras contra mim sem qualquer pudor. Teu corpo que recende à eroticidade. Nojo, a bile subindo à boca, tu és o espelho de minha desgraça. Desejando teu corpo desejo o meu próprio e já não posso conter o impulso: do vomito que despejo é apenas a saliva que corre por minha boca.

Necessito de teu corpo e tu necessitas do meu. A carne que pulsa pela carne. A mão antes incapaz só serve para possuir-te. Não há mais canários nem idiomas estranhos, apenas tua fala suja, gritando num sussurro palavras imundas que me excitam.

Teu corpo nu deitado sobre o meu, o suor de dois em apenas um, o gozo delirante que não passa de urina. Não há amor, não há sexo. O espelho turvo que tu és retira de mim os fluídos da vida. Como me vejo em ti, te vês em mim, nada passa da masturbação de dois seres abjetos. Retiro do teu resto tudo o que posso e fazes o mesmo, nada restando além de estímulos.

Saia! Preciso que sumas reflexo maldito. De visões de minha desgraça basta meu antro, não preciso que a sinalize com tua presença. Chega de palavras sujas. A tuas caricias já me dei, os espasmos de meu corpo não agüentam também os teus. O orgasmo que te tomou já foi o suficiente, se queres mais, recorre a outro! Toda a vida que ainda tinha foi-se. Absorvida por ti num jato quente. O corpo que grita pelo sexo não pede pelo teu sexo. O sexo que é a vida nunca serás o teu, pois estais tão morta quanto eu. Some!

Sem carne, frio, decomposto, se ainda me restava algo, tiraste de mim. Desprezível como eu, és o que é. Leve tua desgraça e me abandona com a minha. Deixe meu corpo tão sedento quanto quando entraras aqui. Deixe-o sedento e fraco, pois já tiraste, de mim, tudo. Some! Some e deixe minha mão incapaz tornar-se a solução. A solução com o trinco e a agulha.

quinta-feira, 6 de março de 2008

À Janela



Já era tarde quando se levantou naquele sábado e rumou para a janela aberta do quarto. Observava o além com o cigarro queimando entre os lábios. Mais uma manhã que se fora sem ser vivida, mas uma noite passada sem recompensas. Atrás das nuvens via a vida que desejava, longe dali, como uma outra pessoa, com uma pessoa. A solidão que vivia – que acredita viver – o consumia.

O mecanismo do relógio de parede gemia e acusava o passar do tempo, mesmo que ele nunca passasse realmente. Dali a pouco seria hora de trabalhar, de ser tão automatizado quanto todas as outras tristes pessoas que ainda viviam – ou apenas existiam. Com um movimento do indicador lançou o cigarro para longe e observou sua queda, como se fosse sua própria. De cabeça baixa, ainda pensando em tudo que nunca teria, andou para a cozinha preparar o café, que talvez o reviveria, ou apenas, como preferia pensar, o faria existir por mais algumas horas.

Pó suficiente para duas garrafas, água para uma caneca, nenhum açúcar; era o sabor tão amargo quanto sua própria existência. Encostou-se na varanda, de costas para a rua, tomando a negritude de sua vida, pastosa; queimando, com o cigarro, mais algumas frações de sua passagem terrena; os pensamentos o pressionando contra o asfalto, lá embaixo. Já era tempo de pegar o ônibus e seguir para seu antro confinado de produção.

A água, toda a limpidez contra o rosto engordurado, impregnado de tudo o que não queria lembrar da noite anterior, enxugou a face na toalha branca, esperando que nela não ficasse marcada toda sua covardia. O toque de seus dedos parecia áspero demais – mas não áspero –, era como se tocasse a pele em decomposição de algum velho mendigo morrendo nas ruas. Procurou as roupas jogadas no chão e vestiu a primeira que conseguiu tocar.

Por sorte alcançou a calça que usara na noite anterior e não teve de procurar a carteira, que estava no bolso; pegou o cigarro, o isqueiro, o livro, que estava jogado ao chão, como todo o resto, e destrancou a porta para sair. ‘Onde vai?’ a voz sonolenta chegava a seus ouvidos; vozes, vozes, sempre ali, audíveis, mas nunca presentes, para que se dar ao trabalho de responder? Não havia a quem responder, dizia-se só, acreditava-se só, era só.

A cabeça baixa, olhos fixos nas páginas amassadas de seu livro de bolso, nem lembrava mais o título, nem do que se tratava, apenas passava as linhas com os olhos, lia as palavras, uma a uma, mas sem conectá-las de forma alguma. Era apenas o vício, precisava ler; ver-se em um outro mundo, para não ter que olhar em volta enquanto andava, ver as pessoas que o cercavam, com sorrisos nas faces, como se fossem realmente felizes.

Mais uma tarde de automatização na firma, a mesma coisa de segunda a sábado. Tudo apenas confirmava sua incapacidade, tudo o levava a fazer as mesmas coisas: copia de um lugar, cola em outro. Trabalhava em silêncio, não falava com nenhum dos colegas de sala, que riam o dia tudo, e era isso o que mais o incomodava, eles sempre riam – como se houvesse algum motivo para rir.

Não dava mais, não dava! Saiu mais cedo afirmando que já tinha terminado o trabalho, mesmo sem saber o que terminar significava naqueles termos, uma vez que a automatização nunca tinha fim. Tinha quer sair um pouco dali, mesmo que não tivesse para onde ir, para quem ir.

Deixou o ônibus de volta para casa passar, preferiu caminhar, lendo palavras sem sentido em páginas amassadas e monocromáticas, como deveria ser todo o resto se víssemos como as coisas são de verdade. A caminhada até sua casa era de trinta minutos, mas naquele dia demorou quase uma hora e meia, o tempo já não tinha sentido nenhum. Quando finalmente chegou desejou não entrar, apenas sentou-se à entrada e acendeu um cigarro, prolongando o espaço de tempo até o momento em que se deitaria, sozinho, desejando que nunca tivesse existido, mas sem coragem de tomar qualquer providência.

O maço de cigarro tinha acabado e nada mais restava se não entrar em casa e deitar olhando para o teto. Buscou a chave nos bolsos e destrancou a porta, entrando. ‘Onde esteve?’, as vozes novamente, seria natural dizer ‘estive trabalhando’, mas porque responder? a quem responde?... e então uma face; ‘nossa, está tudo bem?’, o silêncio incômodo e então pela primeira vez a voz se juntou à face:

- Eu te amo.

- É...