quinta-feira, 6 de março de 2008

À Janela



Já era tarde quando se levantou naquele sábado e rumou para a janela aberta do quarto. Observava o além com o cigarro queimando entre os lábios. Mais uma manhã que se fora sem ser vivida, mas uma noite passada sem recompensas. Atrás das nuvens via a vida que desejava, longe dali, como uma outra pessoa, com uma pessoa. A solidão que vivia – que acredita viver – o consumia.

O mecanismo do relógio de parede gemia e acusava o passar do tempo, mesmo que ele nunca passasse realmente. Dali a pouco seria hora de trabalhar, de ser tão automatizado quanto todas as outras tristes pessoas que ainda viviam – ou apenas existiam. Com um movimento do indicador lançou o cigarro para longe e observou sua queda, como se fosse sua própria. De cabeça baixa, ainda pensando em tudo que nunca teria, andou para a cozinha preparar o café, que talvez o reviveria, ou apenas, como preferia pensar, o faria existir por mais algumas horas.

Pó suficiente para duas garrafas, água para uma caneca, nenhum açúcar; era o sabor tão amargo quanto sua própria existência. Encostou-se na varanda, de costas para a rua, tomando a negritude de sua vida, pastosa; queimando, com o cigarro, mais algumas frações de sua passagem terrena; os pensamentos o pressionando contra o asfalto, lá embaixo. Já era tempo de pegar o ônibus e seguir para seu antro confinado de produção.

A água, toda a limpidez contra o rosto engordurado, impregnado de tudo o que não queria lembrar da noite anterior, enxugou a face na toalha branca, esperando que nela não ficasse marcada toda sua covardia. O toque de seus dedos parecia áspero demais – mas não áspero –, era como se tocasse a pele em decomposição de algum velho mendigo morrendo nas ruas. Procurou as roupas jogadas no chão e vestiu a primeira que conseguiu tocar.

Por sorte alcançou a calça que usara na noite anterior e não teve de procurar a carteira, que estava no bolso; pegou o cigarro, o isqueiro, o livro, que estava jogado ao chão, como todo o resto, e destrancou a porta para sair. ‘Onde vai?’ a voz sonolenta chegava a seus ouvidos; vozes, vozes, sempre ali, audíveis, mas nunca presentes, para que se dar ao trabalho de responder? Não havia a quem responder, dizia-se só, acreditava-se só, era só.

A cabeça baixa, olhos fixos nas páginas amassadas de seu livro de bolso, nem lembrava mais o título, nem do que se tratava, apenas passava as linhas com os olhos, lia as palavras, uma a uma, mas sem conectá-las de forma alguma. Era apenas o vício, precisava ler; ver-se em um outro mundo, para não ter que olhar em volta enquanto andava, ver as pessoas que o cercavam, com sorrisos nas faces, como se fossem realmente felizes.

Mais uma tarde de automatização na firma, a mesma coisa de segunda a sábado. Tudo apenas confirmava sua incapacidade, tudo o levava a fazer as mesmas coisas: copia de um lugar, cola em outro. Trabalhava em silêncio, não falava com nenhum dos colegas de sala, que riam o dia tudo, e era isso o que mais o incomodava, eles sempre riam – como se houvesse algum motivo para rir.

Não dava mais, não dava! Saiu mais cedo afirmando que já tinha terminado o trabalho, mesmo sem saber o que terminar significava naqueles termos, uma vez que a automatização nunca tinha fim. Tinha quer sair um pouco dali, mesmo que não tivesse para onde ir, para quem ir.

Deixou o ônibus de volta para casa passar, preferiu caminhar, lendo palavras sem sentido em páginas amassadas e monocromáticas, como deveria ser todo o resto se víssemos como as coisas são de verdade. A caminhada até sua casa era de trinta minutos, mas naquele dia demorou quase uma hora e meia, o tempo já não tinha sentido nenhum. Quando finalmente chegou desejou não entrar, apenas sentou-se à entrada e acendeu um cigarro, prolongando o espaço de tempo até o momento em que se deitaria, sozinho, desejando que nunca tivesse existido, mas sem coragem de tomar qualquer providência.

O maço de cigarro tinha acabado e nada mais restava se não entrar em casa e deitar olhando para o teto. Buscou a chave nos bolsos e destrancou a porta, entrando. ‘Onde esteve?’, as vozes novamente, seria natural dizer ‘estive trabalhando’, mas porque responder? a quem responde?... e então uma face; ‘nossa, está tudo bem?’, o silêncio incômodo e então pela primeira vez a voz se juntou à face:

- Eu te amo.

- É...

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